sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O que uma tarde pode devolver

Estava tudo em seu lugar. A rua, a pressa, o costume de seguir. Até que uma voz, em outra mesa,disse uma palavra do teu jeito. E a tarde mudou de temperatura.

Voltou teu riso perto do meu ouvido. A demora dos teus dedos antes de soltarem os meus. Aquela maneira de chegar e deixar a porta aberta enquanto me beijava.

Na mesa ao lado, a conversa já era outra. Alguém pediu a conta. Uma cadeira arrastou o silêncio pelo chão. Fiquei mais um pouco. Há dias em que lembrar de você é apenas isso: uma coisa antiga que posso tocar sem desarrumar.

Hoje, porém, a lembrança veio com as mãos quentes. Puxou uma cadeira, sentou perto, perguntou se ainda havia tempo.

O sol descia pelas janelas. E eu quase te amei outra vez com a coragem distraída de quem esquece onde doeu. Se você chegasse agora, talvez eu deixasse a pergunta sobre o amanhã para depois do abraço.



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Sua Camiseta favorita

A chuva escondia os prédios do outro lado da rua. No apartamento, uma música tocava baixo. Tínhamos uma tarde inteira que ainda não sabíamos como terminar.

Eu estava só com a sua camiseta. A gola larga escorregava por um ombro, e o tecido guardava aquele cheiro que, mesmo longe, eu saberia reconhecer. Você me olhava da outra ponta do sofá. Eu sustentava o olhar por alguns segundos, depois sorria para a janela.

Era bom descobrir o que o meu silêncio fazia com você.

Perguntei alguma coisa sobre a música. Você pediu que eu repetisse. Eu ri. Você não estava ouvindo. Seu sorriso apareceu devagar, aquele de canto de rosto , deixando suas covinhas a mostra. — Estou tentando. Você me respondeu.

Aproximei os pés dos seus. Você segurou minha mão e ficou passando o polegar sobre meus dedos, distraído de um jeito que não me enganava. Havia tão pouco espaço entre nós, e ainda assim você demorou a atravessá-lo.

Talvez fosse essa demora.

O tempo de perceber sua intenção. De inclinar o rosto um pouco. De fechar os olhos quando sua mão encontrou minha cintura, por baixo da sua camiseta favorita.

Lá fora, os carros atravessavam a água. Alguém voltava do trabalho, uma porta batia no corredor, a cidade continuava cumprindo seus horários. Eu reconhecia esses sons de longe, com o rosto junto ao seu e os dedos enroscados na sua mão.

Quando a música acabou, fiquei quieta, ouvindo a chuva. Você alcançou o aparelho de som da época e colocou para tocar outra vez. — Você "ia" embora — você disse, ainda perto da minha boca.


Se a noite viesse recolher os nomes das ruas, como você encontraria minha porta? Deixaria uma luz acesa. A cortina entreaberta, um pouco de música atravessando o corredor.

Talvez você chegasse com frio, trazendo nos cabelos a chuva de algum lugar distante. Eu abriria espaço junto à janela e ouviríamos o que restasse da cidade. Haveria tanto para dizer. Mas você pousaria as chaves sobre a mesa, como antes, e por um instante eu esqueceria há quanto tempo espero esse som.

Lá fora, as estrelas se apagariam devagar. Aqui, meus dedos reconheceriam os seus. Você afastaria o cabelo do meu rosto e ficaria um pouco assim, com a mão junto à minha pele, como quem tenta guardar o calor, ou o tempo . 

E se ainda houvesse uma manhã, se a luz entrasse pela cortina e encontrasse suas asas ao lado das minhas… Você ficaria ?




If The World Was Ending you'd come over, right?

Hoje quase te escrevi. Foi uma coisa pequena. Ouvi uma música e pensei que você gostaria dela. Abri a conversa, olhei a última mensagem e fiquei ali, sem saber se ainda podia chegar desse jeito: trazendo uma coisa bonita, sem nenhum outro motivo.

Fechei a tela. A música continuou.

Há uma intimidade estranha em ainda saber o que contar a alguém e já não saber como começar. Tenho histórias que você acharia engraçadas. Uma pergunta que só faria a você. Às vezes, no meio de um dia comum, ainda preparo uma frase como se fosse te encontrar mais tarde.

Depois lembro.

Imagino se, diante de uma última oportunidade, eu teria coragem de dizer tudo. É fácil me imaginar corajosa quando já não haveria um amanhã para enfrentar sua resposta.

Difícil é te procurar numa quinta-feira. Saber que você pode ler, seguir com o seu dia e não sentir vontade de voltar. Deixar que descubra que, deste lado, ainda existe algo.

Talvez seja por isso que eu ensaie despedidas tão bem e nunca consiga escrever um simples “senti sua falta”.

Não sei o que restaria de nós numa conversa. Talvez carinho. Talvez um silêncio que finalmente explicasse os outros. Mas gostaria de ouvir sua voz sem precisar inventá-la na memória.

Agora a música terminou. Da janela, ouço um carro passando, alguém conversando na rua. Ainda preciso decidir o que fazer para o jantar.

Abro nossa conversa outra vez.

“Ouvi uma música hoje. Lembrei de você.”