Hoje quase te escrevi. Foi uma coisa pequena. Ouvi uma música e pensei que você gostaria dela. Abri a conversa, olhei a última mensagem e fiquei ali, sem saber se ainda podia chegar desse jeito: trazendo uma coisa bonita, sem nenhum outro motivo.
Fechei a tela. A música continuou.
Há uma intimidade estranha em ainda saber o que contar a alguém e já não saber como começar. Tenho histórias que você acharia engraçadas. Uma pergunta que só faria a você. Às vezes, no meio de um dia comum, ainda preparo uma frase como se fosse te encontrar mais tarde.
Depois lembro.
Imagino se, diante de uma última oportunidade, eu teria coragem de dizer tudo. É fácil me imaginar corajosa quando já não haveria um amanhã para enfrentar sua resposta.
Difícil é te procurar numa quinta-feira. Saber que você pode ler, seguir com o seu dia e não sentir vontade de voltar. Deixar que descubra que, deste lado, ainda existe algo.
Talvez seja por isso que eu ensaie despedidas tão bem e nunca consiga escrever um simples “senti sua falta”.
Não sei o que restaria de nós numa conversa. Talvez carinho. Talvez um silêncio que finalmente explicasse os outros. Mas gostaria de ouvir sua voz sem precisar inventá-la na memória.
Agora a música terminou. Da janela, ouço um carro passando, alguém conversando na rua. Ainda preciso decidir o que fazer para o jantar.
Abro nossa conversa outra vez.
“Ouvi uma música hoje. Lembrei de você.”
