A chuva escondia os prédios do outro lado da rua. No apartamento, uma música tocava baixo. Tínhamos uma tarde inteira que ainda não sabíamos como terminar.
Eu estava só com a sua camiseta. A gola larga escorregava por um ombro, e o tecido guardava aquele cheiro que, mesmo longe, eu saberia reconhecer. Você me olhava da outra ponta do sofá. Eu sustentava o olhar por alguns segundos, depois sorria para a janela.
Era bom descobrir o que o meu silêncio fazia com você.
Perguntei alguma coisa sobre a música. Você pediu que eu repetisse. Eu ri. Você não estava ouvindo. Seu sorriso apareceu devagar, aquele de canto de rosto , deixando suas covinhas a mostra. — Estou tentando. Você me respondeu.
Aproximei os pés dos seus. Você segurou minha mão e ficou passando o polegar sobre meus dedos, distraído de um jeito que não me enganava. Havia tão pouco espaço entre nós, e ainda assim você demorou a atravessá-lo.
Talvez fosse essa demora.
O tempo de perceber sua intenção. De inclinar o rosto um pouco. De fechar os olhos quando sua mão encontrou minha cintura, por baixo da sua camiseta favorita.
Lá fora, os carros atravessavam a água. Alguém voltava do trabalho, uma porta batia no corredor, a cidade continuava cumprindo seus horários. Eu reconhecia esses sons de longe, com o rosto junto ao seu e os dedos enroscados na sua mão.
Quando a música acabou, fiquei quieta, ouvindo a chuva. Você alcançou o aparelho de som da época e colocou para tocar outra vez. — Você "ia" embora — você disse, ainda perto da minha boca.








